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Arte e educação: acessibilidade para pessoas com deficiência visual

“A arte tem um papel na percepção de individuo sobre sua potência”. A frase é de Paulo Pitombo, artista plástico, educador, mestre em artes visuais pela UNICAMP. Paulo hoje é professor de desenho e pintura para jovens e adultos no Laramara, uma organização que é referência no atendimento às pessoas com deficiência visual.
A relação de Paulo com a arte começou quando ele tinha cerca de 12 anos e teve Stargardt, uma doença que causa a perda de visão progressiva. Nessa mesma época ele decidiu que seguiria seu interesse pela pintura. Passou a ter aulas com uma estudante de artes, que lhe ensinou técnicas com pastel, aquarela, guache, nanquim, óleo, carvão. Paulo segue como artista visual até hoje.


Qual a importância de pessoas com deficiência terem acesso à arte e produzi-la?

Será que a deficiência produz uma obra diferente? O que uma pessoa com deficiência pode agregar na linguagem artística contemporânea? Do ponto de vista da expressão, eu digo que a relação com a arte é igual a das outras pessoas.
Mas uma obra feita por uma pessoa com deficiência é importante porque causa uma mudança atitudinal e de ampliação do público. Nós temos que discutir segregação, integração e inclusão, no sentido de estar junto.
A arte acolhe, ela não se valida da condição corporal, o corpo não é impedimento para uma pessoa fazer arte, então qualquer pessoa que tenha uma deficiência, seja ela qual for, pode fazer arte.

Como tornar a arte mais acessível para pessoas com deficiência?

Os apoios são tudo. Existe um conceito chamado Tecnologia Assistiva, que vai de acordo com a lei de inclusão  Nº 13.146 de 2015, e representa o arsenal de recursos, serviços, metodologias e equipamentos que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e consequentemente tornam o ambiente mais acessível.
Algumas adequações têm de ser feitas para atender as especificidades de cada deficiência. Para isso, temos que derrubar barreiras, elas são uma construção da sociedade, pois o impedimento é no corpo e sempre vai existir.
Por exemplo, o Museu do Futebol foi criado para atender o público em geral e foi pensado também de acordo com especificidades de pessoas que não enxergam. Então, foram feitas maquetes, materiais de apoio e, principalmente, a capacitação dos monitores. Eu fiz um trabalho de imersão no Museu do Futebol que se chamava “Deficiente Residente”, em que discutíamos o que era adequado e o que era inadequado para pessoas com deficiência visual. Situações como essa são muito novas, mas a maioria das instituições estão correndo atrás de um discurso coerente. A legislação brasileira é uma legislação avançada do ponto de vista da acessibilidade.

O que precisamos mudar para tornar o ensino de arte-educação mais inclusivo?

Meu mestrado “Práticas artísticas para todos: as artes plásticas no cenário da inclusão no município de São Paulo”  tem uma análise relacionada a isso. Nele usei três categorias de análise: a primeira é que a formação do professor na graduação ainda é fraca. Outras formações complementares como o Aprendendo com Arte, as das prefeituras, formações no trabalho, muitas vezes abordam a acessibilidade de forma mais aprofundada. Mas essa abordagem também é importante na graduação. Existem conteúdos sobre Libras, mas sobre deficiência visual e intelectual não há um movimento massivo.
A segunda categoria são as Tecnologias Assistivas, especificidades e mediação, pensando em como é feita a mediação para produção e a apreciação da arte. A terceira categoria de análise é a mudança da mentalidade, a mudança de atitude perante uma pessoa com deficiência. Essa mudança de atitude só acontece por familiarização, na convivência, na observação. Mudança de atitude não acontece só através dos livros.

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