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Arte além das palavras

Ao contrário do que muitos podem pensar, lá não há silêncio, não há ausência. Existe apenas uma cultura diferente, outra forma de ver, de falar, de se relacionar…. Estamos falando de uma aula de artes com alunos surdos.

Andreza Nunes é professora numa EMEBS (Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos) e está inserida no contexto da aula de artes para surdos há cerca de seis anos. Em sua dissertação de mestrado “Aula de arte para com surdos: criando uma prática de ensino”, ela discorre sobre a importância de dar aulas “com” o aluno e não “para” ele.

“O ‘para’ vai do professor para o aluno, como se o professor entregasse todo o conteúdo pronto. Já o ‘com’ parte de uma construção coletiva, na qual o aluno também compartilha conhecimento e participa da construção da aula junto com o professor”, explica Andreza.

Em sua pesquisa, Andreza conta que nem sempre as EMEBS tiveram essa denominação, já foram chamadas de Instituto Municipal dos Surdos Mudos, Instituto de Educação de Crianças Excepcionais, Escola Municipal de Educação de Deficientes Auditivos… “Às vezes as palavras importam muito. Esse é um caso, pois sempre que mudam o nome da escola, a forma de olhar o aluno também é modificada”.

Ela complementa: “Falar que um aluno é deficiente é muito perigoso. A deficiência depende do ponto de vista”. Andreza ressalta que, em uma abordagem pedagógica e cultural, a surdez não pode ser percebida como deficiência, porque seria como se algo faltasse no aluno, ao invés da surdez ser entendida como uma especificidade.

A aula ideal, de Artes inclusive, está intrinsecamente ligada à LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Não só na sala de aula, mas em todos os contextos de aprendizagem dos alunos, envolvendo os funcionários do ambiente escolar, a família, amigos etc. “Seria uma realidade muito única, onde um espaço teria o verdadeiro bilinguismo, que ainda não alcançamos na escola pública”.

“A arte é fundamental, porque expressa mais do que palavras”. Andreza ainda salienta a importância da produção de arte na comunidade surda, para formação da identidade do artista surdo brasileiro. “Mas sinto que faltam registros, não existem materiais sobre grupos de artistas brasileiros surdos”.

A construção de um contexto educativo (e artístico) mais inclusivo deve partir sempre do fato de que os surdos possuem voz, arte, cultura e uma língua. Eles são construtores de conhecimento, possuem sua forma de ver o mundo e de se comunicar.

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